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  • jose226

Galeria Bonino

Roberto Burle Marx preparava uma exposição de pintura para a Bonino, famosa galeria de arte em Copacabana. Eram 30 quadros. Não podia ser mais nem menos, em função do espaço da galeria. Retoca um, muda a moldura de outro, corta outro, inclui mais um, aquela confusão! A cada amigo que chegava no ateliê, ele mostrava a seleção e pedia opinião. Claro, cada um dizia algo diferente do outro, principalmente sobre a inclusão e exclusão de quadros:

- Roberto! Este aqui não pode ficar de fora!

- Mas... qual eu tiro? Respondia meio aflito o paisagista.

Quando tudo estava decidido, toca o telefone. Era a dona da galeria, pedindo que ele lhe passasse os nomes dos quadros, para constar do catálogo que estava sendo feito para a ocasião. Roberto simplificou:

- Ponha Composição nº 1, Composição nº 2 e assim por diante, até Composição nº 30.

Mas ela protestou:

- Roberto, isso não é comercial. Você tem que colocar nomes expressivos!

Pronto! Uma nova tarefa, muito mais difícil que a primeira, começava. Fui ajudá-lo nisso, trazendo quadro por quadro para que ele batizasse e anotando, nas costas da moldura, o nome escolhido. No começo foi fácil. Ele ia escolhendo nomes românticos, do tipo “Restinga”, “Planura Solitária”, “Trama de Raízes” ou algo do gênero. Lá pelo sétimo ou oitavo, sua paciência começou a se esgotar:

- Ainda falta muito? Pergunta. E eu, para seu desespero:

- Não chegou nem na metade!

Mas ele já tinha chegado ao fim da paciência. Já estava naquela fase em que só queria se desincumbir da tarefa no mais breve tempo possível. E começou a inventar palavras:

- Esse... “Burnaca”. Esse daí...”Stravazavia”. O outro, “Blifonga”!

E seguiu inventando nomes, sempre com apenas uma palavra! Até que, quando faltavam uns poucos ainda sem nome, trouxe-lhe mais um para o qual ele ficou olhando em silêncio. Será que tinha se esgotado até mesmo o repertório de palavras inventadas? Tentei dar uma força, dizendo que faltava pouco, mas que ele precisava colocar os nomes. Ainda me olhou em silêncio durante alguns longos segundos. De repente, seus olhos se iluminaram:

- Ponha “Mãe e Filha Striptizando no Mato”!

Depois desse nome tão estranho, voltou à invenção e concluiu a árdua tarefa. Mas eu ainda quis confirmar:

- Aquele “Mãe e Filha...” vai ficar com este nome mesmo?

Mas ele já estava com a cabeça em outro lugar e sequer me respondeu. Então escrevi o nome atrás da moldura. Durante a ‘vernissage’ havia sempre uma concentração maior de convidados em torno daquela pintura!

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